segunda-feira, 25 de maio de 2009

Alem do cidadao kane(documentario sobre a rede Globo)







POR TRÁS DA TELA
Abril de 2005.

Já que a rede avassaladora transmitirá sua verdade única a milhões de brasileiros, cabe aos veículos alternativos o contraponto. A começar explicando a verdadeira idade desta velha senhora. O fato é que a Globo não tem apenas 40 anos, "idade da loba", como definiu uma sorridente Cristiane Torloni no Jornal Nacional desta segunda-feira (25/4). A questão é que revelar sua própria idade implica, nesse caso, algo mais do que assumir as rugas. Vejamos esse trecho do livro A história secreta da Rede Globo, de Daniel Herz: "No ano seguinte, em 1962, a Globo assinou com Time-Life dois contratos e passou a ser subvencionada por milhões de dólares".
A Globo foi montada com US$ 6 milhões de dólares, enquanto a maior emissora da época, a Rede Tupi, havia sido construída com US$ 300.000,00. Os contratos firmados com o grupo Time-Life resultaram numa CPI que não foi muito longe e não chegou a resultados concretos, embora o acordo violasse a Constituição do Brasil. Sobre o grupo Time-Life, o então deputado João Calmon disse: "é um grupo da linha mais reacionária e mais retrógrada do Partido Republicano, exclusivamente interessado em manter, em países como o nosso, bases anticomunistas" (A História Secreta da Rede Globo, página 93).

De fato, o chamado 'perigo comunista' estava em moda na época. Ocupavam o lugar que hoje é ocupado pela 'ameaça terrorista'. E tanto no passado quanto no presente, os meios de comunicação da mídia grande jamais se preocuparam em contextualizar essa temática, optando por reproduzir, sem questionamentos, o discurso dominante. Nesse sentido, o escritor Roméro da Costa Machado, autor do livro "Afundação Roberto Marinho", vai ainda mais longe e afirma, em um de seus artigos que se encontram logo abaixo, ser um erro analisar o contrato da Globo com a Time-Life simplesmente como um caso de violação à Constituição:

- O escândalo Globo/Time Life não é meramente um caso de um sócio brasileiro (Roberto Marinho) que aceita como sócio uma empresa estrangeira (Grupo Time-Life), contra todas as leis do país. O escândalo Globo/Time-Life é mais do que isso. É antes de mais nada um suporte de mídia que visava apoiar, dar base, sustentação e consolidar a ditadura no Brasil, apoiada e supervisionada pela CIA, por exigência dos Estados Unidos, comandado por terroristas da CIA, como Vernon Walters e Joe Walach, sendo este último com emprego fixo na Globo, como "representante" do grupo Time-Life.

No momento em que a Globo tenta reescrever a história lançando livros e organizando uma festa que promete se alongar durante uma semana inteira de modo a tentar convencer o público de que em sua existência não existem pecados, é importante não deixar que todas essas luzes ofusquem o olhar. Não podemos nos esquecer que a Rede Globo nasceu e se criou em meio a troca de favores com a ditatura apoiada pelos EUA; não custa lembrar da manipulação grosseira, em 1984, por ocasião das manifestações pelas "Diretas Já" ou ainda aquela edição, em 1989, que favoreceu Fernando Collor. E esses são apenas alguns poucos casos. Os que ficaram mais famosos em meio a tantos outros.

Por tudo isso preparamos este Especial Globo com o intuito de constituir uma fonte de consulta segura sobre a verdadeira história dessa empresa. De início, onze artigos de Roméro da Costa Machado, que trabalhou durante dez anos na Fundação Roberto Marinho, alcançando o cargo mais alto da Fundação, o de controller, e também o posto de assessor especial de José Bonifácio Sobrinho, o Boni, que foi durante muitos anos o braço direito de Roberto Marinho. Para acompanhar, destacamos o texto produzido pelo coletivo Intervozes, que oferece uma análise precisa sobre a Rede Globo. Boa leitura!

the corporation

the ocupation 101

domingo, 24 de maio de 2009

Por que Jango caiu.


“O governo de Jango não cai em razão de seus eventuais defeitos; ele é derrubado por suas qualidades: representa uma ameaça tanto para o domínio norte-americano sobre a América Latina, como para o latifúndio”. 
Darcy Ribeiro 
O Ibope 

A pedido da Federação do Comércio do Estado de São Paulo, o Ibope realizou pesquisa, durante os últimos dez dias antes do golpe, na maior cidade do país – aquela que, segundo os golpistas, saiu à rua em peso para apoiar a deposição de Jango. Os índices colhidos entre os dias 20 e 30 de março de 1964 mostravam, ao contrário, significativo apoio dos paulistanos ao governo. 
Mais de 80% dos quinhentos eleitores entrevistados sabia dos decretos de Jango: encampação das refinarias de petróleo, desapropriação de terras às margens de açudes, ferrovias e rodovias federais; e tabelamento de aluguéis – medidas aprovadas por 64%. 
No dia 26 de março o Ibope concluiu oura pesquisa: metade dos eleitores de oito capitais votariam em Jango à reeleição. Não há notícias de que tais pesquisas tenham sido publicadas na época. 

Esses dois textos foram extraídos da nova coleção “Caros Amigos” 

A história em cima dos fatos. 

Esta é a segunda coleção de fascículos Caros Amigos. A primeira foi Rebeldes Brasileiros - Homens e mulheres que desafiaram o poder. A proposta, tanto da primeira como desta segunda coleção, é mostrar episódios e personagens da história do Brasil a partir de nosso ponto de vista, que difere substancialmente do encontrado em trabalhos semelhantes publicados pelas editoras grandes de revistas e jornais, mesmo porque elas defenderam e defendem a elite econômico-financeira que sempre dominou o poder e que não admite qualquer reforma institucional que possa ameaçar seus privilégios. Como aconteceu no episódio que vamos contar nessa série de fascículos, como aconteceu em episódios anteriores e como pode acontecer cada vez que um governo propuser mudanças estruturais ao país. 
No caso as editoras grandes apoiaram vigorosamente o golpe de Estado que inaugurou o longo período chamado “anos de chumbo”, a ditadura militar que durou 21 anos., de 1964 a 1985. 
A presente coleção, dividida em 12 fascículos que irão para as bancas e livrarias de quinze em quinze dias, descreve em detalhes as diversas fases daquele governo de exceção, a partir da noite de 31 de março de 1964 até a entrega da faixa presidencial a José Sarney, em 15 de março de 1985, após tumultuado processo que culminaria com a volta do Estado de Direito

As mortes dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek de Oliveira e João Belchior Marques Goulart estão sendo investigadas pela Câmara Federal desde maio



INTRODUÇÃO

As mortes dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek de Oliveira e João Belchior Marques Goulart estão sendo investigadas pela Câmara Federal desde maio último. Os dois ex-presidentes morreram em 1976, em circunstâncias que seguem deixando rastros de dúvidas e mistérios. Nenhum dos corpos foi necropsiado antes do sepultamento.
Recentemente, João Vicente Goulart, filho de Jango, autorizou a exumação do cadáver do pai, supervisionada por uma comissão do Congresso. Ao mesmo tempo o deputado Paulo Octávio, casado com a neta de JK, presidirá outra comissão, destinada a investigar o acidente automobilístico que matou o Juscelino na via Dutra. Suspeita-se em envenenamento e acidente provocado nos respectivos casos.
OPERAÇÃO CONDOR

Estas recentes investigações ocorrem na esteira da "Operação Condor", uma aliança político-militar criada para reprimir a resistência aos regimes ditatoriais instalados nos seis países do Cone Sul (Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e Bolívia).
Foi somente com a intervenção de um magistrado argentino, que o governo brasileiro, 15 anos depois da redemocratização, determinou a abertura dos arquivos da ditadura militar (1964-1985). Na Argentina, o juiz Cláudio Bonadío solicitou oficialmente à Justiça Brasileira informações sobre a Operação Condor. Bonadío averigua o destino de 16 cidadãos argentinos (três deles teriam sido sequestrados no Brasil por militares argentinos), entre 1976 e 1982.
No Brasil, Gilmar Mendes, advogado-geral da União, foi o autor do pedido do Planalto que determinou que as Forças Armadas abrissem os arquivos da repressão no período da ditadura militar. Aguarda-se uma resposta até o final de junho, sendo que o julgamento analisará os documentos antes de enviá-los ao Supremo Tribunal Federal, que encaminhará os papéis à Justiça argentina
OS ANOS 70

O início dos anos 70 são considerados os "anos de chumbo" para a América Latina, marcados por golpes militares, que inauguraram ditaduras assassinas em quase todo continente, destacando-se Bolívia (agosto de 1971), Chile (setembro de 1973) e Argentina (março de 1976), entre outros.
No Brasil, onde os militares já estavam no poder desde 1964, a ditadura ganhou força com a publicação do Ato Institucional n0 5 em dezembro de 1968. Em outubro de 1975, o jornalista Wladimir Herzog, militante do Partido Comunista Brasileiro, é torturado e assassinado numa cela do DOI-Codi em São Paulo. Destacam-se ainda a morte sob tortura do metalúrgico ligado ao PCB Manuel Fiel Filho, também no DOI-Codi de São Paulo e o fuzilamento de dois dirigentes do PcdoB em 1976.
Nesse mesmo ano, Jimmy Carter elegia-se presidente dos Estados Unidos pelo Partido Democrata, com uma campanha baseada na luta pelos direitos humanos, o que poderia representar o fim da colaboração dos EUA com as ditaduras militares na América Latina.
Em setembro de 1977 o jornalista norte-americano Jack Anderson divulgou uma carta redigida pelo coronel Manuel Contreras, chefe da polícia secreta do Chile, endereçada ao general João Batista Figueiredo, chefe do Serviço Nacional de Informações, que em 1979 sucedeu o general Ernesto Geisel na Presidência da República. Na carta, datada de 28 de agosto de 1975, Contreras mostra-se preocupado com a recente eleição nos EUA e os defensores dos direitos humanos na América Latina, citando entre eles o ministro do Chile Orlando Letelier e Juscelino Kubitschek : "Também temos conhecimento das posições de Kubitschek e Letelier, o que no futuro poderá influenciar seriamente a estabilidade do cone sul de nosso hemisfério. O plano proposto por você para coordenar a ação contra certas autoridades eclesiásticas e políticos da América Latina, conta com o nosso decisivo apoio".
Coincidência ou não, Juscelino e Letelier morreram pouco depois da data da correspondência. Juscelino morreu num acidente de carro em 22 de agosto de 1976 e Letelier num atentado a bomba em 21 de setembro. Em 6 de dezembro era a vez de João Goulart, que com 58 anos morria de enfarte nem sua fazenda na Argentina.
OÃO GOULART E AS REFORMAS SOCIAIS

Quando Jânio Quadros, que sucedeu JK, renunciou, seu vice João Goulart encontrava-se na China comunista. Embora sua missão fosse oficial, alguns chefes militares começam a acusar o governo de Jango de esquerdista. Essas acusações faziam parte de uma forte resistência vice de Jânio, que já era feita desde a década de 50, quando João Goulart fora Ministro do Trabalho de Getúlio, responsável por uma significativa elevação do salário minimo. O impasse estava criado. Enquanto as camadas populares e setores da classe média mais progressista estavam com Jango, as elites, representando as oligarquias nacionais e o imperialismo norte-americano eram contra. A solução encontrada foi permitir que João Goulart assumisse a presidência, porém, com a adoção do Parlamentarismo. Sendo assim, Jango não governaria de fato, já que nesse sistema, o poder de decisão está nas mãos do chefe de governo, representado pela figura do Primeiro Ministro, Tancredo Neves naquele momento.
A situação começaria e se inverter em dezembro de 1962 quando através de um plebiscito foi restabelecido o Presidencialismo, representando assim, o apoio popular ao presidente João Goulart e aos segmentos políticos aliados. Nesse momento o governo implanta o "Plano Trienal", elaborado pelo conceituado economista Celso Furtado, que pretendeu inutilmente reduzir o índice inflacionário sem afetar o crescimento econômico. A aposição conservadora aumentaria com a aprovação das "Reformas de Base", com destaque para reforma agrária, que partilharia os latifúndios, a reforma eleitoral, que entre outras coisas, daria condição de voto ao analfabeto, a reforma fiscal, que estabeleceria um critério censitário para pagamento de impostos, além da reforma universitária, que ampliaria o número de vagas nas universidades públicas.
Esta aproximação do governo com uma política de reformas estruturais, culminará com famoso comício de 13 de março de 1964 na Estação Central do Brasil no Rio de Janeiro, onde fica mais explícito o apoio dos partidos de esquerda ao presidente. Enquanto isto, a inflação aumentava, agravando as agitações internas e dando pretexto para o fortalecimento dos setores de direita contrários aos avanços sociais e ao caráter "subversivo" do governo Jango. Nesse contexto, representantes das Três Armas, com apoio de considerados setores da burguesia nacional e da Igreja Católica, combatem abertamente o governo e no dia 31 de março de 1964 desencadeia-se o movimento militar que irá depor João Goulart. Em 1o de abril, João Goulart viajou para Porto Alegre, onde se negou a organizar a resistência, evitando assim uma guerra civil. Exilando-se no Uruguai, participou com Juscelino e Carlos Lacerda da organização de uma Frente Ampla pela redemocratização do país. Em 1973, transferiu-se para a Argentina e logo após o golpe militar sobre o governo de Isabel Perón, foi vitimado supostamente por um ataque cardíaco em 6 de dezembro de 1976.

COMPROMISSO COM A VERDADE

Será em breve a exumação dos restos de João Goulart, já autorizada pela família. O mesmo deverá ocorrer com Juscelino Kubitschek. Os militares se dizem comprometidos com as investigações pela busca da verdade, mas na prática ainda resistem.
O passado é história, mas a história nem sempre é verdade. Caso as investigações das mortes de JK e Jango e da Operação Condor prosseguirem com a devida transparência, o governo estará assumindo um importante papel no compromisso com a justiça e com a democracia. Apesar das feridas não cicatrizadas, ficará a contribuição com o restabelecimento da verdade para a história do Brasil e da América Latina.

zeitgeist 2